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01/12/2017 - Palavra, palavrinha, palavrão

Tratar o outro por meio de palavrões, palavras grosseiras ou desqualificações. Uma cena normal no mundo virtual, que vem se naturalizando nas relações presenciais. Ou seria o contrário? Fato é que a naturalização desse comportamento tem tido forte impacto nas relações entre as crianças e entre elas e os adultos.

Com um olhar cuidadoso sobre a questão, no intuito de questionar a naturalização desse tipo de relação, a última Roda de Pais da Escola Lua Nova, no dia 2 de outubro, mediada por Ana Manoela Santos, orientadora da Escola, colocou o tema em pauta.

 Segundo Walkyria Rodamilans, diretora pedagógica da escola, a intenção, ao promover o bate papo não é falar de um lugar asséptico. “Não temos a intenção de atuar de forma moralista, mas do ponto de vista da moral é muito importante que as crianças construam uma relação de respeito e saibam que essa forma de se dirigir ao outro não está correta”, disse Walkyria. E foi justamente a percepção do que está por trás do uso desses @#$%@#, que levou a Lua Nova a abrir uma exceção na programação do encontro, cuja temática normalmente é definida a partir de sugestões dos pais, que compartilham suas dúvidas e inquietações com integrantes da equipe pedagógica, com o objetivo de discutir aspectos do desenvolvimento infantil, envolvidos no trabalho da Lua Nova.

Ana Manoela, orientadora educacional e mediadora da Roda de Pais, iniciou o bate papo ressaltando que, dessa vez, a temática estava sendo trazida pela própria escola, a partir da observação do cotidiano das crianças na instituição, assim como por meio dos comentários das famílias sobre o comportamento das crianças em seus cotidianos. “Nossa proposta para estabelecer esse diálogo vai para além dos palavrões e seus sentidos, incluindo aí palavras diversas usadas com a intenção de atingir, agredir o outro. A demanda da escola é saber como isso chega aos pais”, disse, dando início ao diálogo.

Algumas preocupações foram trazidas pelo grupo. Desde o uso de um vocabulário de cunho chulo, impróprio, ofensivo, rude, obsceno, agressivo ou imoral sob o ponto de vista de uma língua puritana, como a portuguesa. Até o uso desse linguajar no intuito de atingir o outro, numa expressão de raiva, desprezo ou desvalorização. Muitas vezes sendo naturalizado como uma brincadeira.

Concordando que não se trata de condenar, o grupo avaliou o que está, culturalmente, por trás do comportamento. Parece ser mais socialmente aceito ou esperado o uso do palavrão por meninos. No entanto, sobre esse aspecto, o grupo discutiu o quanto a luta por direitos e valorização das mulheres constrói, desde cedo, a possibilidade de meninos e meninas participarem da vida social de modos iguais, vinculando o tema a um outro muito discutido na atualidade: as questões de gênero.

Influência

Num tempo no qual a influência familiar, apesar de ter sua força preservada pela referência e pela convivência, vem sofrendo forte impacto da mídia, em especial a televisiva e a virtual, com sua vasta disponibilização de jogos e tutorais, tornando cada vez mais desafiador para os pais acompanhar o alcance da curiosidade das crianças. Num tempo marcado por comportamentos agressivos, especialmente nas mídias digitais, ao ponto de ganhar um nome específico: “cultura do ódio”, a preocupação da Lua Nova e do grupo que esteve presente na instituição no dia da Roda de Pais é: a intenção por trás do que é dito.

Como se posicionar?

Ficaram, então, as questões: Até que ponto o palavrão pode ser aceitável? Devemos naturalizar? Há ambientes mais propícios? Entre opiniões e posicionamentos diversos, um alinhamento: não é aceitável o uso do palavrão na naturalização da agressividade, pautado pelo afeto, direcionado a ofender ou desmerecer o colega. Aí não dá para deixar passar.