09/12/2017 - Educação olho no olho

A Educação Infantil e os primeiros anos de transição para uma nova perspectiva da escolarização - o Fundamental I, são anos delicados e potentes para o desenvolvimento humano.

Uma máxima que muitos parecem acordar, ao buscar uma Educação que tenha como base: valores, respeito à individualidade e estímulo à criatividade da criança. Mas, pais e educadores, como realizar esse trabalho? Quais as bases que devem predominar no alcance desses desafios? Para uns, mais investimento financeiro para dar solidez às instituições, com estruturas mais “modernizadas”. Para outros, como afirma Walkyria Rodamilans, diretora pedagógica da Lua Nova, a resposta está no contato diário e atencioso à criança: “A educação só se faz, se tiver o olho no olho”, disse.

Conversamos com Walkyria Rodamilans sobre essa proposta de “educação olho no olho” e nos deparamos com um conceito de artesanalidade que perpassa pela valorização da produção das crianças, pelas relações e pelo uso das novas tecnologias.

  • O que você quer dizer por “Educação olho no olho”?

Walkyria Rodamilans: Falo de gente em torno das crianças, entendendo como as dinâmicas do cotidiano estão acontecendo, fazendo leituras dessas dinâmicas, ajudando a pensar o sujeito dentro do grupo. E também do cuidado com o professor, é preciso pensar nele dentro de uma instituição. Do professor na relação com o grupo, nas relações entre as crianças, como se processa o conhecimento dentro da sala de aula. Enfim, uma artesanalidade que é fundamental e estruturante sem que, com isso, a gente negue tecnologia, nem a gente negue infância. Está tudo junto”.

  • Como garantir isso no cotidiano da escola?

Walkyria Rodamilans: Isso tem que ser vivenciado com a criança como uma cultura da instituição, nos princípios de um projeto pedagógico, na forma como a gente concebe a aprendizagem, na forma como a gente concebe a relaçãoa mediação de conflito. A iniciativa vai do porteiro à criança. Enfim, essa artesanalidade tem que estar inerente ao tecido da instituição. É a vida dentro desse tecido, que dá sustento a essa forma de funcionar.

E para isso acontecer, temos que estar o tempo todo refletindo sobre os princípios, se vendo como pessoa, se vendo como profissional, ajudando aos profissionais a se verem num mundo que tem demandas extremamente complexas e massificadoras, sem que a gente mergulhe nelas. Sendo necessário que esse professor, criança, todos nós, tenhamos um senso crítico de onde estamos indo, do que está sendo ofertado, de como eu posso, do que me serve isso, de como eu me utilizo disso. Sem essa discussão e sem essa artesanalidade a gente vai no meio de um rolo compressor.

  • Você fala de duas dimensões diferentes – o coletivo e o subjetivo. Como equilibrar isso dentro do universo das instituições de Educação?

Walkyria Rodamilans: A gente está o tempo todo, nesse tecido, buscando esse ponto de equilíbrio, porque a gente tem a responsabilidade de: enxergar sujeitos, garantir a formação dos sujeitos; mas também pensar dentro de uma coletividade - aprender a estar numa coletividade. E isso tem que ser feito com um olhar múltiplo, com um senso crítico em relação à realidade, ao que está sendo ofertado, o que me é importante, o que não é, fazendo as crianças pensarem. Precisamos estar atentos ao que a gente vivencia, cotidianamente, em termos de cultura da infância. É um mundo se descortinando para a criança, temos que ter essa perspectiva de analisar todas essas questões. Horas a gente vai muito para o coletivo, horas a gente vai para o sujeito e, assim, vamos buscando esse ponto de equilíbrio

  • Preparar as crianças para um “novo mercado”, para novas profissões que estão por vir. O que você pensa dessa promessa?

Walkyria Rodamilans: Preparar essas crianças para... preparar para quê? A gente não sabe nem o que vai serNa verdade, a gente precisa que elas sejam AGORA pessoas, sujeitos, que elas se construam nessa perspectiva, que se construam com a possibilidade de se reconhecerem como estudantes, como pessoas capazes de buscar informações, de produzir, de trocar informações, de pensar.

É preciso cuidar da autoestima da criança, proporcionar a ela a construção de uma confiança fortalecida. Se ela tem essas ferramentas, ela vai se inserir no mundo que vier. Salas altamente equipadas com recursos tecnológicos utilizados sem que lhe estejam atribuídos algum sentido, sem que a informação seja transformada em conhecimento, não farão diferença nenhuma.

É preciso dar a esse sujeito a possibilidade de se descobrir nesse caminho da tecnologia, de interagir com o outro, de se ver com a sua produção, de não ter uma linha de produção assertiva, no sentido de que ele tem que chegar a algum lugar pré-determinado. Mas com a possibilidade dele se descobrir nessa expressão, pois as diversas tecnologias existem tanto como ferramenta, como enquanto linguagem.